Positive vibrations


02/04/2008


E segue a vida...

Pois bem,
depois dos altos e baixos e dos revezes sofridos a vida voltou ao normal...
Minha amada voltou para mim e apesar de hoje não estarmos morando juntos, temos uma relação bem bacana, fundamentada em respeito e confiança mútua.
Voltei a não pensar mais no assunto HIV e vou levando a vida como ela quer. Como já disse antes, assim como todo mundo, não sei quando vou morrer e ficar pensando nisso além de mórbido é altamente estressante, então pra que ficar buscando chifre em cabeça de cavalo???
Se você que está lendo este relato é companheiro de sorologia, faça como eu, seja aderente ao tratamento e viva sua vida como se isto fosse apenas um sonho ruim que um dia irá acabar. Apesar de sabermos que não acabará tão cedo assim... O mais importante é ter a exata noção de que existem coisas muito piores por aí. Quando se sentir o pior dos piores seres humanos, vá até um hospital, fique de olho apenas por alguns momentos em uma emergência de Pronto-socorro, vá visitar uma ala de pacientes de câncer, vá ver uma ala de queimados, vá ver uma sala de operações ortopédicas. Tenho certeza que em pouquíssimo tempo vcoê vai sair dando risada por ter apenas uma merda de um serzinho inútil, que nem está enquadrado no reino animal, convivendo com você, e que se você seguir o tratamento à risca, nem vai te incomodar tanto assim. Só não se descuide, senão o bicho pega mesmo e o quadro também é terrível. Agora se você não é soropositivo, mas está tendo um relacionamento com alguém que é, tente não se preocupar, tente ver que as possibilidades de se infectar com quem está em tratamento até existe, mas é bem pequena. Meu médico chegou a falar que é bem mais fácil contrair o vírus em uma relação desprotegida com quem não é conhecedor de sua sorologia do que com quem é soropositivo em tratamento, mesmo que ocorra algum acidente, como uma camisinha estourada, por exemplo.
Bom That's All Folks!!!!

Vou seguindo minha vida feliz e contente, apesar de tudo.

Havendo novidades, contarei aqui...

Escrito por Peter Parker às 17h16
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08/02/2008


Depois da tempestade, a bonança

 

E assim está sendo desde então....

Claro que a reação imediata foi me afastar de tudo e de todos logo depois de diagnosticado. Me tranquei em casa e por lá fiquei por pelo menos uns 3, 4 meses, saindo apenas para o necessáriamente essencial. Noitadas, baladas, nada disso me pertencia mais e na verdade eu já andava cansado daquela vida. Tenho uma ótima família, um filho que vive comigo (a mãe dele morreu logo após o parto, mas nada a ver com HIV) e já era mais que sem tempo de eu ser mais caseiro, de me dedicar mais a eles. Então juntei a fome com a vontade de comer....

Havia uma namorada com quem eu me relacionei por mais de um ano antes do diagnóstico, fazendo misérias na cama com ela, era muito, mas muito sexo mesmo, de todas as formas possíveis e imagináveis e sempre sem proteção. O namoro já havia acabado, ela morava em outra cidade, mas me senti na obrigação de contar a ela, pois se não tinha sido infectado por ela, certamente eu a havia infectado. Me desfiz de qualquer pudor ou medo e lhe enviei um e-mail contando a novidade. Claro que o susto dela foi enorme, mas como já havia passado o período da janela imunológica, ela foi prontamente fazer o teste e para nossa grata surpresa o resultado foi negativo. Isto ainda é um dos maiores mistérios para mim, não faz o menor sentido ela não ter sido infectada, pois como disse, ela estava comigo na fase mais aguda da minha infecção e pela quantidade de relações desprotegidas, principalmente pela quantidade de vezes que fizemos sexo anal, pela enorme quantidade de esperma que ela ingeriu.... sei lá, talvez seja coisa de predestinados... Como a vida não para de me surpreender, esta garota, mesmo depois de todo susto, largou tudo em sua cidade e veio morar comigo e vivemos mais uns 6 meses de estrepolias sexuais, com a única diferença de que agora só fazíamos sexo com camisinha. Motivos totalmente alheios à minha sorologia fizeram com que o romance acabasse e ela voltou a sua cidade natal, com seu precioso sangue intacto.... Na verdade nunca gostei muito dela, era só pelo excelente sexo que ficamos juntos por tanto tempo. Foi bom enquanto durou, mas não me realizava como pessoa. Apenas me ensinou que talvez existissem pessoas que mesmo com a gravidade da coisa podiam não ter preconceito e me aceitar, independente do risco a que estariam expostas. Mas acabei descobrindo que isto é 1 em 1 milhão pois depois de terminado este relacionamento voltei a me enclausurar em casa e fiquei na mais completa solidão amorosa por mais de 1 ano.

Foi então que aconteceu o que eu nem esperava mais. Uma ex-namorada me ligou e convidou para um encontro. Eu fui, pensando em apenas fazer um "remember", talvez uma transadinha e nada mais. O problema foi que os encontros acabaram se sucedendo, começamos a nos falar diariamente e a nos ver com muita frequencia. O resultado foi o que eu não previa nem esperava, acabei me apaixonando perdidamente por ela e todo dia era um tormento com a dúvida se contava ou não sobre  meu problema. Ela por sua parte também se dizia extremamente apaixonada e começaram então planos para nosso futuro, com papos de casamento e tudo o mais. Eu é que não deixava a coisa ir muito adiante, desconversando sempre que o assunto começava a ficar mais sério, apesar da minha enorme vontade de me entregar completamente, de realmente me casar com ela e ter um futuro a dois. E o tempo passando e eu não encontrando a coragem necessária para contar. Um belo dia, ela ficou em casa (já estávamos praticamente morando juntos) e eu saí para ir ao supermercado. De repente toca o celular e ela com voz de choro me pede para voltar imediatamente pois precisávamos conversar. Fiquei branco na hora e já imaginei o que havia acontececido. Meus exames todos ficam em uma pasta que não estava escondida, mas estava em meio a diversos outros papéis e não imaginava que ela iria fuçar por lá. Mas acontece que fuçou... daí não preciso nem contar muito, foi aquela choradeira de ambas as partes, eu pedindo mil desculpas por não haver contado antes, etc e tal... Ressalto que nunca a coloquei em risco extremo, pois não houve uma vez sequer que tenhamos feito sexo desprotegido, apesar de ela querer muito. Eu com a desculpa de não querer mais filhos e dizer que era radicalmente contra o uso de anticoncepcionais, sempre usei a camisinha, exceto no sexo oral, que apesar de eu ter medo de a estar expondo, não tinha como evitar sem levantar suspeitas. Depois de muito chora daqui, lamenta dali, eu dei a ela um tempo para pensar e decidir o que queria fazer. Nem precisou de muito tempo, já no dia seguinte ela estava me procurando, dizendo que seu amor era mais forte que tudo e que iria segurar esta barra junto comigo. Fiquei radiante, era como se um sonho se transformasse em realidade, era como se um pesadelo tivesse acabado e finalmente a tal da felicidade batesse à minha porta. No mesmo dia falei que agora que meu segredo tinha sido revelado, eu estava pronto para nos casarmos e planejar o futuro a dois. Começei a reformar a casa, ela começou a trazer suas coisas e em uma semana já estávamos morando juntos de verdade, os planos para a papelada do casamento já feitos e tudo o mais. Eu me sentia nas nuvens, nem podia acreditar, depois de tudo o que havia passado, a vida me agraciava com esta alegria. Levei-a para fazer o teste, que apesar de eu ter quase certeza, ainda precisava da confirmação. O resultado foi negativo. Mais alegria ainda. Mas como alegria de pobre dura pouco, sei lá porque cargas d'agua, aproximadamente um mês disso tudo ter acontecido, notei que ela começou a ficar estranha, distante, não demonstrando o prazer que demonstrava antes quando fazíamos amor (mesmo depois de ter descoberto) e agora, numa segunda-feira,de carnaval, ela me disse que não estava suportando a pressão, que estava com muito medo e que não queria morrer. Pegou todas as suas coisas, chamou um amigo para levar tudo e me deixou.

segue no próximo post...

Escrito por Peter Parker às 12h18
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07/02/2008


O início de tudo

Pois então...

Resolvi criar este blog para poder compartilhar com outras pessoas esta experiência de ser hiv+. Note que escrevi experiência, podia ter colocado martírio, sofrimento, angústia, mas na verdade acho que experiência é o que melhor exprime a situação.

Vou contar um pouco da minha história:

Nasci lá pelos idos de 1964, em uma família normal, tive uma infância também normal, estudei em bons colégios, tudo como manda o figurino.

Nada a destacar muito até os anos 80, que foi quando tive a primeira namorada, mais precisamente em 83 e a coisa durou bastante, quase casei (cheguei a ficar noivo) mas acabou terminando em 89. Nesta época eu já havia entrado e saído de 2 faculdades e estava fazendo a 3ª, que era o que parecia ser um sonho realizado, uma Universidade Federal, no curso que eu mais me interessava e me interesso até hoje. Percalços do destino e uma greve de mais de 6 meses acabaram por me levar a ser obrigado a procurar um emprego. Já passava dos 20 e poucos anos e ficar às custas de pai e mãe era cada dia mais vergonhoso pra mim. Quando as aulas finalmente voltaram eu já havia arrumado um bom emprego e me vi forçado a trancar a matrícula. Talvez esta seja a única coisa de que realmente me arrependo de ter feito em toda a minha vida, pois nunca mais voltei e me tornei um insatisfeito profissionalmente. Sempre ganhei a grana que preciso pra viver bem. mas jamais poderei dizer que sou realizado, pois até hoje continuo completamente fora da minha real área de vocação.

Foi mais ou menos por aí que ouvi falar pela primeira vez em AIDS, na verdade foi em 86, tinha até uma musiquinha do Léo Jaime que dizia que era uma nova moda que chegou do norte, uma moda que seria de morte ou coisa assim e o refrão dizia AIDS, não tente colocar Band-Aids. Depois veio aquela leva de porradas de gentes morrendo sem expectativa nem esperança. Cazuza foi o que mais me marcou e certamente a sua coragem em se expor daquela maneira o tornará talvez mais imortal que qualquer outro que tenha sido vítima do vírus. Nesta época eu jamais poderia imaginar que um dia eu faria parte da estatística de infectados, era coisa de viado ou no máximo de prostitutas muito promíscuas.

Daí vieram os anos 90 e minhas loucuras começaram, comecei a fumar maconha, depois a cheirar cocaína e finalmente cheguei ao crack. Nunca usei nenhuma droga injetável nem tampouco a cometer algum crime para saciar meus vícios. Na verdade nunca fui daqueles drogaditos estereotipados, que vendem até o sutiã da mãe pra conseguir mais um pouco de droga. Meu negócio eram as noitadas, agitos e mulherada, as drogas eram apenas consequencia e estímulo pra mais uma dose. Por conta disso não tenho a mínima idéia de onde ou com quem me contaminei. Só sei que foi em uma relação heterosexual sem camisinha, que foram incontáveis neste período. Pra mim AIDS era coisa que só acontecia com os outros, comigo jamais poderia acontecer, afinal, eu não era viado, não transava com putas e as gatinhas que eu comia não poderiam ter risco algum. Ledo engano.... Aquele Slogan que diz que quem vê cara não vê AIDS é a mais pura verdade.

Bom daí é que vem a parte que mais interessa a quem possa estra lendo este relato.

Comecei a emagrecer sensivelmente lá por 2000, 2001. Mas sempre achei que era por causa do crack, que na época eu ainda fumava. Fui morar em outra cidade por 2 anos e quando voltei já havia largado das pedras, mas a magreza continuava. cada vez mais desconfiado de que havia alguma coisa de errado, resolvi fazer um check-up geral. Fiz exame de tudo quanto é possível fazer e nada, tudo normal. Tinha um medo tremendo de fazer o teste de HIV e deixei este por último, já com uma pulga do tamanho de um elefante atrás da orelha. Não deu outra. Em dezembro de 2003 peguei o resultado em um laboratório particular. O resultado, em letras garrafais não deixava dúvida: POSITIVO!

Um buraco se abriu no chão e meus pés não encontravam onde se apoiar. Fui pra casa com aquela cara de enterro e simplesmente não sabia o que fazer. Claro que uma das primeiras reações que a gente tem é que a vida se acabou, que estamos sentenciados à morte rápida e com muito sofrimento. Não tive como disfarçar meus sentimentos e contei logo de cara pra minha família, que me deu total apoio e me ajudou de sobremaneira a conseguir enfrentar a situação. Só não contei para meu filho, que na época tinha apenas 10 anos e por uma terrível coincidência do destino, peguei o resultado justamente no dia do seu aniversário.

Depois deste baque inicial, começou minha maratona de idas ao infectologista. Logo de cara o que ele pediu foram os exames com contagem de carga viral e de CD4. A carga viral deu 850.000 cópias por ml de sangue e o CD4 estava em 350. Com estes níveis o médico achou que ainda não precisaria iniciar o tratamento, deixando para fazer isso quando o CD4 baixasse de 200, o que acabou acontecendo 8 meses depois, quando meu CD4 foi a 175 e assim, em agosto de 2004, comecei a tomar os comprimidos. Para minha surpresa (e dos médicos também) logo com 3 meses de tratamento meu CD4 subiu astronomicamente para 850 (carga viral indetectável)e em 6 meses já passava de 1500, indicando que a terapia caiu feito uma luva para mim.

Como sempre fui assintomático, na verdade foi só o fator psicológico que me abalou. Nunca tive uma gripe sequer e até hoje levo uma vida absolutamente normal, nem me lembrando do fato de ser um HIV+, nem mesmo quando tomo os comprimidos, que são apenas 3 por dia e já se incorporaram à minha rotina.

Mas isto não quer dizer que tudo é um mar de rosas. Principalmente pelo que irei relatar no próximo post.

até breve....

 

Escrito por Peter Parker às 15h59
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