Pois então...
Resolvi criar este blog para poder compartilhar com outras pessoas esta experiência de ser hiv+. Note que escrevi experiência, podia ter colocado martírio, sofrimento, angústia, mas na verdade acho que experiência é o que melhor exprime a situação.
Vou contar um pouco da minha história:
Nasci lá pelos idos de 1964, em uma família normal, tive uma infância também normal, estudei em bons colégios, tudo como manda o figurino.
Nada a destacar muito até os anos 80, que foi quando tive a primeira namorada, mais precisamente em 83 e a coisa durou bastante, quase casei (cheguei a ficar noivo) mas acabou terminando em 89. Nesta época eu já havia entrado e saído de 2 faculdades e estava fazendo a 3ª, que era o que parecia ser um sonho realizado, uma Universidade Federal, no curso que eu mais me interessava e me interesso até hoje. Percalços do destino e uma greve de mais de 6 meses acabaram por me levar a ser obrigado a procurar um emprego. Já passava dos 20 e poucos anos e ficar às custas de pai e mãe era cada dia mais vergonhoso pra mim. Quando as aulas finalmente voltaram eu já havia arrumado um bom emprego e me vi forçado a trancar a matrícula. Talvez esta seja a única coisa de que realmente me arrependo de ter feito em toda a minha vida, pois nunca mais voltei e me tornei um insatisfeito profissionalmente. Sempre ganhei a grana que preciso pra viver bem. mas jamais poderei dizer que sou realizado, pois até hoje continuo completamente fora da minha real área de vocação.
Foi mais ou menos por aí que ouvi falar pela primeira vez em AIDS, na verdade foi em 86, tinha até uma musiquinha do Léo Jaime que dizia que era uma nova moda que chegou do norte, uma moda que seria de morte ou coisa assim e o refrão dizia AIDS, não tente colocar Band-Aids. Depois veio aquela leva de porradas de gentes morrendo sem expectativa nem esperança. Cazuza foi o que mais me marcou e certamente a sua coragem em se expor daquela maneira o tornará talvez mais imortal que qualquer outro que tenha sido vítima do vírus. Nesta época eu jamais poderia imaginar que um dia eu faria parte da estatística de infectados, era coisa de viado ou no máximo de prostitutas muito promíscuas.
Daí vieram os anos 90 e minhas loucuras começaram, comecei a fumar maconha, depois a cheirar cocaína e finalmente cheguei ao crack. Nunca usei nenhuma droga injetável nem tampouco a cometer algum crime para saciar meus vícios. Na verdade nunca fui daqueles drogaditos estereotipados, que vendem até o sutiã da mãe pra conseguir mais um pouco de droga. Meu negócio eram as noitadas, agitos e mulherada, as drogas eram apenas consequencia e estímulo pra mais uma dose. Por conta disso não tenho a mínima idéia de onde ou com quem me contaminei. Só sei que foi em uma relação heterosexual sem camisinha, que foram incontáveis neste período. Pra mim AIDS era coisa que só acontecia com os outros, comigo jamais poderia acontecer, afinal, eu não era viado, não transava com putas e as gatinhas que eu comia não poderiam ter risco algum. Ledo engano.... Aquele Slogan que diz que quem vê cara não vê AIDS é a mais pura verdade.
Bom daí é que vem a parte que mais interessa a quem possa estra lendo este relato.
Comecei a emagrecer sensivelmente lá por 2000, 2001. Mas sempre achei que era por causa do crack, que na época eu ainda fumava. Fui morar em outra cidade por 2 anos e quando voltei já havia largado das pedras, mas a magreza continuava. cada vez mais desconfiado de que havia alguma coisa de errado, resolvi fazer um check-up geral. Fiz exame de tudo quanto é possível fazer e nada, tudo normal. Tinha um medo tremendo de fazer o teste de HIV e deixei este por último, já com uma pulga do tamanho de um elefante atrás da orelha. Não deu outra. Em dezembro de 2003 peguei o resultado em um laboratório particular. O resultado, em letras garrafais não deixava dúvida: POSITIVO!
Um buraco se abriu no chão e meus pés não encontravam onde se apoiar. Fui pra casa com aquela cara de enterro e simplesmente não sabia o que fazer. Claro que uma das primeiras reações que a gente tem é que a vida se acabou, que estamos sentenciados à morte rápida e com muito sofrimento. Não tive como disfarçar meus sentimentos e contei logo de cara pra minha família, que me deu total apoio e me ajudou de sobremaneira a conseguir enfrentar a situação. Só não contei para meu filho, que na época tinha apenas 10 anos e por uma terrível coincidência do destino, peguei o resultado justamente no dia do seu aniversário.
Depois deste baque inicial, começou minha maratona de idas ao infectologista. Logo de cara o que ele pediu foram os exames com contagem de carga viral e de CD4. A carga viral deu 850.000 cópias por ml de sangue e o CD4 estava em 350. Com estes níveis o médico achou que ainda não precisaria iniciar o tratamento, deixando para fazer isso quando o CD4 baixasse de 200, o que acabou acontecendo 8 meses depois, quando meu CD4 foi a 175 e assim, em agosto de 2004, comecei a tomar os comprimidos. Para minha surpresa (e dos médicos também) logo com 3 meses de tratamento meu CD4 subiu astronomicamente para 850 (carga viral indetectável)e em 6 meses já passava de 1500, indicando que a terapia caiu feito uma luva para mim.
Como sempre fui assintomático, na verdade foi só o fator psicológico que me abalou. Nunca tive uma gripe sequer e até hoje levo uma vida absolutamente normal, nem me lembrando do fato de ser um HIV+, nem mesmo quando tomo os comprimidos, que são apenas 3 por dia e já se incorporaram à minha rotina.
Mas isto não quer dizer que tudo é um mar de rosas. Principalmente pelo que irei relatar no próximo post.
até breve....